sábado, abril 25, 2015

Tempestade em jarro de vidro pt.1

  As partes do ciclo são simultâneas em todos seus aspectos. Há umidade presente no ar, na terra, nas peles que escorrem pelos ciclos intermináveis e coabitam o suor. Neste âmbito, eu transpire conexão. Percebo em mim o condensamento e seu papel na face outra que evapora, e compreendo a dependência de minhas formas a cada gota que me preenche, assim como me faço útil ao movimentá-las, mantê-las sempre em processo. O pulso que nos move é inerente a tudo o que existe em si e não pode deixar de ser; assim, preocupo-me que cada gota encontre seu caminho por meus veios, e vejo nela a contagem infinita do que já conheceu e do que, nela, eu já absorvi.
Busco resgatar a ancestralidade em tudo o que parece
novo e incicatrizável;
a água, no que é leito
de rio e
rosto conhecido.

segunda-feira, abril 13, 2015

Estudo de um sonho - III




   Mal eram perceptíveis as raízes que escapavam furtivas pelos cantos da casa, fixando-a ao solo para que não fugisse com a brisa. A madeira clara das paredes gritava o contraste com a mais escura que a invadia pelo centro, cortando sua linearidade tortuosa e vomitando verde erguido no seu papel de teto. Adentrando aquele eu-lúdico, percebi em mim a possibilidade de um lar. A sala iluminada por cujas paredes corria seiva viva poderia me abrigar a vontade, e ali eu poderia constituir uma voz.
   O nosso coro era de seis. Partilhávamos do espaço sem precisar nos esbarrarmos pelos cantos, respeitosos na vivência daqueles cômodos. Houve então a transição da Lua sobre o Sol, e na água que gotejou pelas janelas veio a fragilidade transitória da madeira. Cada degrau me gritava à memória:
“vai
eu vou
vai
eu vou”
   Tive a infelicidade de saber que abandonar a estrutura não me removeria de meu lugar nela: aquilo que conheceu os caminhos que trilhei não poderia ignorar a preparação do meu passo. O que eu me preparava para deixar conhecia a permanência do que vibra e palpitar presente mesmo no meu desconcerto.
   De três em três como éramos, um do primeiro trio chorava à minha porta que eu o deixava, sem nunca tentar explicar por que não tentaria a passagem para o além-casa, fora-casca. Uma do segundo trio o consolava, que suas lágrimas não queriam buscar lugar em minhas malas; estas, que eu não conseguia fechar, mesmo que soubesse que lá fora a umidade abria caminho e o trem logo passaria. Sequer procurei algo como passagem, a despedida da casárvore era meu bilhete premiado inesquecível dissonância. A casa permaneceria incólume quando eu me fosse, mas no momento era predizível o odor da ruína. (O corpo do ego sofreria a calcinatio líquida para o meu retorno. Sobre a relíquia insepulta, a volta em desassombro será o ápice da penitência; habitarei em meu afeto quando nele couber o que não necessita ficar.)
Eu me expurguei
Do meu corpo
Para merecê-lo
Uma casa
   Ignorei as lágrimas do ele que não eram para mim, e me dediquei a memorizar a sensação de estar em casa. Soube reconhecer os veios da árvore – que emoldurava as quinas e eviscerava o telhado – e as nuances do chão, espantada que o jorro repentino de decadência não estivesse na madeira, mas no som escorregadio de soluços. Tive pesar em deixar o que não podia carregar, embora soubesse que, ao retorno, não restaria ali sequer memória do que era inútil. Eu desejei ser mais capaz de apego.
   Não recordo o que guardei na mala, perdi os nomes do coro de habitantes, divergi do caminho de pranto que o ele teceu. Queimei da memória as cores celestes do manto do rei, e devorei suas cinzas clamando o futuro retorno ao recanto dileto. Da casa, eu lembro da cor, do tempo, e do pertencimento; apesar do distanciamento, não me lembro de ter saído.

[este texto está presente na zine âmago azul n.2 ; o desenho foi feito especialmente para este texto, por Gabriel Strauss]

quinta-feira, abril 02, 2015

[O que é afinal esta vivência]

   Esta fuga do não ser a que me habituei com o chamado do corpo-que-descansa, abduzir o Nilo como sêmen aureolar do rio fecundo. Há um animal em mim que se ressente da cordialidade. A parte do meu raciocínio que não pensa abocanha colheradas frias sem ignorar o contato do metal com os dentes.

   This will destroy me, this will be the last inch of earth under my fingernails; soon I shall ignore the call of my knees to shift at the sound of prey. And so I will be numb, a dull being full of sentiment and lacking on strength. What will be then of my nature
when my throat no longer slits other’s teeth, what will I feed upon
...?
Is there such a beast, one who doesn’t
fight back?

   Quanta funda já marcou o aço que me fere, é o que me diz a força para aceitar a dor. A terra que foi lapidada na vontade possui pouco do que foi história. Dobrar-me-ei sobre as marcas da queda, porque senti-las exige esforço.

The ripping
Of skin-close safety
Hurts just as much as being safe
And unchangeable when the stars fall

   A parte ciente do que foi renegado acumula forças para o retorno; este, medido na amplitude do desaconchego, será em paz.

To come home from a long absence: find you don’t remember it as well as you thought; take notice on so many details you’re not quite sure are new or had just passed by before; acknowledge that is great to be back, but there was profit on being away, for it changed you inside out in.


   Na retomada do caminho pelas pedras, a criatura em mim percebe: não teve fome, pois vinha se comendo.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

[sem título]

 Então compreendi o abandono da casa; então compreendi o outono de seus galhos. Jamais seria capaz de deixá-la por completo, mas que lar é esse em que se habita a podridão? Meu rancor tingiu as paredes. A partir do momento em que a restringi ao meu querer, neguei sua essência de unidade. Como poderia querer habitar nesse estado – do ser vivente – sem garantir o mesmo direito a qualquer um que desejasse entrar? Pois a porta está aberta!
   E as janelas anunciam o uivo que se aproxima vivo, quente, úmido de sequidão, clamando os nomes que não se enunciam para permitir amor. Perdoem-me, pois não soube o que fazia. A casárvore tem raízes por toda parte, e sua seiva nos alimentará como for necessário: nossa sede será sua força. O vazio a destruiria.  Suas paredes respeitam a privacidade do orgulho (que é medo) e compreendem os limites: sei bem que às vezes outros risos perturbarão meu repouso. Não sou tola de crer que meu nome para outros jamais soará acre; os que habitam comigo também podem achar difícil digerir a convivência.
   Mas há uma vela acesa na sala, que nos atrai. Queimei com ela o nome mais difícil de escrever: com o papel em chamas, fiz a luz para respirar cômodos esquecidos. Perdoei assim os que achavam necessário deixar-me no escuro para que sua luz lhes bastasse, porque eu também cria (embora negasse) ser impossível abrigar mais vida. Mas o amor é todo ser vivente, e a árvore toma como bênção toda guia. Bem-vindo seja quem vier, e mantenha a porta aberta.

domingo, dezembro 14, 2014

ofídica

Tuas pequenas partes de um meio fazem rir em todo um desafio. É doce amargo que desliza de barriga teu luzir de escama em abundância, o refletir de cada meia-lua estampado em feição suave no sorrir sem dentes. O que tua falta de forma permite é esmiuçar em corpo restrito todo um infinito das tuas linhas. Fere-me a profundidade do teu olho sobre meus sorrisos partidos, visto que poderia me devorar as falanges e a falácia. Suga cada sombra e desse escuro tenta abrir os lábios em brilho, mas faltam presas. Teu rompante em pele nova tem um azul-solidão que me dói a potência do dilatamento ao inalar teu silvo. Não basta que se tenha se não pode comer a vida a dentadas, me devorar a pele romã e enlaçar minhas sementes em tua barriga chata. Mancha a relva com pele-lantejoula esperando que a terra compreenda suas estrelas e permita suas inflexões, não bastando amor que não possua teu nome e compartilhe de tua cicatriz. Me bastaria admirar distante teus reflexos, não tivesse esgueirado parte a parte teus venenos em minha boca rachada e pedido com doçura, "engole".



quinta-feira, junho 05, 2014

Zine âmago azul n.1

 A primeira zine do âmago azul logo estará disponível nas feiras de zines de Brasília, repleta com textos inéditos. Até lá, você pode comprar a sua entrando em contato:

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