segunda-feira, janeiro 05, 2015

[sem título]

 Então compreendi o abandono da casa; então compreendi o outono de seus galhos. Jamais seria capaz de deixá-la por completo, mas que lar é esse em que se habita a podridão? Meu rancor tingiu as paredes. A partir do momento em que a restringi ao meu querer, neguei sua essência de unidade. Como poderia querer habitar nesse estado – do ser vivente – sem garantir o mesmo direito a qualquer um que desejasse entrar? Pois a porta está aberta!
   E as janelas anunciam o uivo que se aproxima vivo, quente, úmido de sequidão, clamando os nomes que não se enunciam para permitir amor. Perdoem-me, pois não soube o que fazia. A casárvore tem raízes por toda parte, e sua seiva nos alimentará como for necessário: nossa sede será sua força. O vazio a destruiria.  Suas paredes respeitam a privacidade do orgulho (que é medo) e compreendem os limites: sei bem que às vezes outros risos perturbarão meu repouso. Não sou tola de crer que meu nome para outros jamais soará acre; os que habitam comigo também podem achar difícil digerir a convivência.
   Mas há uma vela acesa na sala, que nos atrai. Queimei com ela o nome mais difícil de escrever: com o papel em chamas, fiz a luz para respirar cômodos esquecidos. Perdoei assim os que achavam necessário deixar-me no escuro para que sua luz lhes bastasse, porque eu também cria (embora negasse) ser impossível abrigar mais vida. Mas o amor é todo ser vivente, e a árvore toma como bênção toda guia. Bem-vindo seja quem vier, e mantenha a porta aberta.

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