segunda-feira, abril 13, 2015

Estudo de um sonho - III




   Mal eram perceptíveis as raízes que escapavam furtivas pelos cantos da casa, fixando-a ao solo para que não fugisse com a brisa. A madeira clara das paredes gritava o contraste com a mais escura que a invadia pelo centro, cortando sua linearidade tortuosa e vomitando verde erguido no seu papel de teto. Adentrando aquele eu-lúdico, percebi em mim a possibilidade de um lar. A sala iluminada por cujas paredes corria seiva viva poderia me abrigar a vontade, e ali eu poderia constituir uma voz.
   O nosso coro era de seis. Partilhávamos do espaço sem precisar nos esbarrarmos pelos cantos, respeitosos na vivência daqueles cômodos. Houve então a transição da Lua sobre o Sol, e na água que gotejou pelas janelas veio a fragilidade transitória da madeira. Cada degrau me gritava à memória:
“vai
eu vou
vai
eu vou”
   Tive a infelicidade de saber que abandonar a estrutura não me removeria de meu lugar nela: aquilo que conheceu os caminhos que trilhei não poderia ignorar a preparação do meu passo. O que eu me preparava para deixar conhecia a permanência do que vibra e palpitar presente mesmo no meu desconcerto.
   De três em três como éramos, um do primeiro trio chorava à minha porta que eu o deixava, sem nunca tentar explicar por que não tentaria a passagem para o além-casa, fora-casca. Uma do segundo trio o consolava, que suas lágrimas não queriam buscar lugar em minhas malas; estas, que eu não conseguia fechar, mesmo que soubesse que lá fora a umidade abria caminho e o trem logo passaria. Sequer procurei algo como passagem, a despedida da casárvore era meu bilhete premiado inesquecível dissonância. A casa permaneceria incólume quando eu me fosse, mas no momento era predizível o odor da ruína. (O corpo do ego sofreria a calcinatio líquida para o meu retorno. Sobre a relíquia insepulta, a volta em desassombro será o ápice da penitência; habitarei em meu afeto quando nele couber o que não necessita ficar.)
Eu me expurguei
Do meu corpo
Para merecê-lo
Uma casa
   Ignorei as lágrimas do ele que não eram para mim, e me dediquei a memorizar a sensação de estar em casa. Soube reconhecer os veios da árvore – que emoldurava as quinas e eviscerava o telhado – e as nuances do chão, espantada que o jorro repentino de decadência não estivesse na madeira, mas no som escorregadio de soluços. Tive pesar em deixar o que não podia carregar, embora soubesse que, ao retorno, não restaria ali sequer memória do que era inútil. Eu desejei ser mais capaz de apego.
   Não recordo o que guardei na mala, perdi os nomes do coro de habitantes, divergi do caminho de pranto que o ele teceu. Queimei da memória as cores celestes do manto do rei, e devorei suas cinzas clamando o futuro retorno ao recanto dileto. Da casa, eu lembro da cor, do tempo, e do pertencimento; apesar do distanciamento, não me lembro de ter saído.

[este texto está presente na zine âmago azul n.2 ; o desenho foi feito especialmente para este texto, por Gabriel Strauss]

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